O PSD tem mesmo uma terceira via para o Brasil?
Humberto Dantas[1]
O livro “O Brasil no Espelho”, de Felipe Nunes, a quem entrevistei no Canal Um Brasil, mostra que a sociedade brasileira está cansada economicamente. Parte da descrença na política estaria associada ao fato de que não existe a sensação de que o universo democrático olhe para esta dificuldade, o que causaria desalento, e até mesmo apatia à democracia.
Esta leitura é corroborada por pesquisas divulgadas entre o fim de 2025 e o começo de 2026 pela Quaest, indicando 30% de brasileiros que dizem não ter vontade de ver Lula ou Bolsonaro governando o país – aqui o filho Flávio já parece representar o clã. Chamados de nem-nem em um texto de O Globo escrito por Thomas Traumann, com quem Felipe assina livro sobre a polarização cristalizada no país, este segmento tem características próprias que merecem atenção. Um terço dele diz não pretender votar, o que transcende as médias de abstenção. Certamente um outro segmento desse grupo, em eventual segundo turno entre PT e PL, novamente vai votar no “menos pior”. Eles concordam em larga medida com a ideia de que todos os políticos são corruptos, e mais de dois terços recusam nominalmente os atores da polarização.
Este cenário levou alguns partidos a pensarem no que se convencionou chamar de terceira via. Uma candidatura que escape à polarização e responda aos principais problemas do país de forma a gerar confiança. A primeira pergunta: O que são esses problemas? As pesquisas sugerem segurança pública, e o livro de Felipe indica o cansaço econômico que obriga as pessoas a trabalharem demais. Existe alguma candidatura que escape à polarização e garanta algo nesse sentido? O PT de Lula fala em redução da jornada 6x1, e conquistou a ideia de isenção do IRPF para as menores rendas. O PL aposta em quadros para dizer que sabe trabalhar o tema da segurança pública, reduzindo a criminalidade. Esses espaços já não estariam ocupados?
O PSD entendeu que não, e lançou governadores de destaque no Brasil para que concorressem internamente à posição de pré-candidato competitivo. Quem ofereceu os nomes mais competitivos foram: Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás, com características diferentes. Virtudes: pessoas experimentadas e um líder nacional, Gilberto Kassab, conhecido por hábil leitura política. Desafios: a heterogeneidade do partido, que já disse, por exemplo, que na Bahia e no Rio de Janeiro, provavelmente, estará com o PT e em outros estados é de direita, inclinado ao bolsonarismo. Como trocar esse regionalismo por um projeto nacional, sem dar ao escolhido a sensação de que está numa candidatura com cabeça e sem corpo?
A saída mudou a lógica que levou a legenda ao cenário presidencial. O escolhido não foram os nomes do sul, mais centrais. Ficou o goiano Ronaldo Caiado, cujas declarações recentes estão associadas à ideia de pacificar o país com anistia aos presos pela tentativa de golpe de 08/01. Faz sentido? Para o equilíbrio ao centro, nenhum. Em 2022, o já reeleito governador de Goiás, com 52% dos votos, disse que seu apoio era “geral e irrestrito” a Jair Bolsonaro no segundo turno. Ele, em meio a tais características, disputa os 30% de nem-nem que correm o risco de sequer aparecerem para votar?
A aposta do PSD, que dificilmente fará a legenda convergir, será na experiência administrativa do ex-governador, posicionado à direita, o colocando como “melhor” do que Flávio Bolsonaro. Mas como desmontar o adversário sem afugentar o que mais precisa nele? O eleitorado. Nesta conjuntura, fico com uma das contribuições de Felipe à citada entrevista: “vamos viver esta mesma polarização em 2026?”, perguntei. E ele: “provavelmente sim”. Os números das pesquisas de intenção de voto e rejeição não contrariam.
Link para a entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=-fg6sRwEBqU
Link para o texto de Thomas Traumann: https://oglobo.globo.com/politica/thomas-traumann/coluna/2026/02/o-que-quer-os-que-nao-querem-nem-lula-nem-bolsonaro.ghtml
Recomposição ministerial e a estratégia em ano eleitoral
Joscimar Silva[2]
No dia 31 de março de 2026 o Palácio do Planalto divulgou uma lista com 14 trocas de Ministros e Ministras do Governo Lula 3. As trocas fazem cumprir a regra legal de desincompatibilização (afastamento do cargo) de ocupantes de cargos e função pública em chefia de ministérios, secretarias, diretorias de estatais, governadores, prefeitos, juízes e membros de tribunais de contas para que possam se candidatar nas eleições 2026 para cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente e vice-presidente.
Neste contexto, o processo de recomposição ministerial se deu pela ascensão de secretários-executivos e outros similares que já ocupavam cargos nos mesmos ministérios ou relacionados. Isso se deu por duas razões, sendo a segunda mais importante: 1. Pouco tempo de mandato. Quem assume um ministério agora terá apenas 8 meses de gestão, sem tempo para inovar. 2. É ano eleitoral, tempo de entrega de políticas públicas e programas governamentais que serão destaque na campanha à reeleição do atual presidente Lula. Dessa forma, é fundamental que as políticas e programas sejam implementados e/ou executados nos prazos estabelecidos, antes do período eleitoral e, quem já está em cargos decisivos na pasta ministerial tem maiores condições de dar continuidade à gestão.
Na mais recente recomposição, em março e abril de 2026, cerca de 18 dos 37 ministros e ministras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva saíram desses cargos para disputar as eleições, segundo a Agência Brasil[3]. Ou seja, uma renovação de quase metade das lideranças dos ministérios.
A recomposição ministerial em ano eleitoral cumpre funções estratégicas. A primeira é garantir as entregas de políticas e programas que melhorem a avaliação de governo e a sua potencial reeleição. A segunda, é possibilitar que ministros, ministras e lideranças políticas com apelo eleitoral possam disputar cargos estratégicos para a manutenção da força do grupo político governante. Enquanto as trocas ministeriais em meio de mandato cumprem a função de acomodação de interesses para manutenção da coalizão de governo e manutenção das condições de governabilidade, em ano eleitoral o foco é a reeleição presidencial ou de seu sucessor para a manutenção do grupo político no governo.
Ao analisar a estratégia de manutenção das equipes ministeriais verifica-se que a nomeação ministerial de pessoas que anteriormente ocupavam cargos de secretaria executiva traz dois ganhos ao governo Lula 3. Primeiro, a continuidade das políticas em implementação e execução, sem um tempo de adaptação e sem renovar a equipe ministerial. Em segundo lugar, fortalece vínculos políticos, especialmente com servidores de carreira do Executivo Federal, que são empoderados com colegas nas posições superiores dos ministérios.
Quanto à estratégia de fortalecimento do grupo político no próximo mandato é fundamental perceber quais cargos os ex-ministros disputarão. Geraldo Alckmin (PSB-SP) - vice-presidente e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços - sai para disputar a vice-presidência novamente. Ao Senado disputam Rui Costa (PT-BA), Gleisi Hoffman (PT-PR), Simone Tebet (PSB-SP), Márcio França (PSB-SP), Marina Silva (REDE-SP), Carlos Fávaro (PSD-MT), André Fufuca (PP-MA). Para disputas aos governos estaduais vão Fernando Haddad (PT-SP), Renan Filho (MDB-AL). Os demais se candidatam a cargos de deputados estaduais (ex: Macaé Evaristo, PT-MG) e federais (ex: Jader Filho, MDP-PA) ou ainda em definição (ex: Camilo Santana, PT-CE). Esse cenário parece apontar para o foco no Senado, embora ainda necessitando arranjos na negociação, como no caso de São Paulo, com duas vagas no Senado e três pré-candidatos ligados ao governo Lula 3.
Assim, o governo Lula 3, ganha em dois cenários: as entregas de programas e políticas públicas em ano governamental e, com a transferência de legitimidade para as candidaturas do seu grupo ministerial em diferentes cargos e estados, com a visibilidade e o trabalho de ex-ministros e ex-ministras.
Um balanço da janela eleitoral
Henrique Curi[4]
Uma disputa eleitoral envolve o cumprimento de regras em qualquer democracia. Assim como os eleitores precisam obter o título eleitoral, os candidatos também precisam seguir alguns protocolos. No Brasil, um dos principais é a filiação a um partido político – condição sine qua non para concorrer a uma cadeira. Pelas regras eleitorais, a filiação de políticos de primeira viagem ou experientes deve ocorrer seis meses antes do pleito. Em 2026, este prazo foi finalizado dia 03 de abril.
Além disso, entre 5 de março e 3 de abril deste ano, tivemos a chamada janela eleitoral, que é o período em que políticos em mandato podem mudar de partido. Nesse intervalo, deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de sigla sem perder o mandato, ministros devem deixar o governo e governadores e prefeitos devem renunciar a seus mandatos caso pretendam disputar um cargo diferente. Após esse período, o pré-candidato precisará ser escolhido pelo partido durante a convenção partidária e ter sua candidatura registrada.
Quando um partido político no Brasil, onde há elevado índice de disciplina partidária, atrai um deputado para sua base, há dois tipos de conquistas para a sigla: (1) aumento do poder parlamentar no Legislativo e (2) expansão da base eleitoral partidária. Ou seja, os partidos ganham apoio imediato nas votações legislativas e aumentam seu alcance eleitoral na eleição futura (Freitas, 2012).
Atualmente, 11 dos 27 governadores deixaram seus cargos para disputarem cargos diferentes. Dois deles declararam interesse em disputar a Presidência - Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) - e nove pretendem disputar uma cadeira no Senado[5]. Além disso, 17 ministros afastaram-se de suas atribuições junto ao Poder Executivo para concorrem às eleições[6]. Mas esses afastamentos não dizem respeito a mudança partidária – é na Câmara dos Deputados que encontramos um terreno fértil para essas movimentações.
Ao todo, mais de 22% dos deputados migraram de legenda[7]. O PL foi o partido com maior crescimento, com um saldo de 11 deputados a mais entre chegadas (20) e saídas (9). Já o União foi o que mais perdeu, sendo 14 deputados no total. Essa reordenamento das siglas à direita ocorreu principalmente a partir da candidatura presidencial mais competitiva do espectro até então, com Flávio Bolsonaro (PL). O União, dentro deste contexto complexo de atuação com espaço na coalizão de Lula (PT), viu o principal destino de seus filiados ser justamente o PL. Já à esquerda, a maior bancada (PT) manteve seu tamanho com apenas uma saída e uma chegada - é verdade que as opções dentro do espectro são menores, com menor incentivo a mudança. Essas movimentações entre partidos dimensionam a fidelidade partidária dos deputados e, pelo mercado disponível, é clara a diferença a partir do espectro ideológico. Enquanto o partido que mais teve movimentação na direita atingiu 36 mudanças (União), o partido à esquerda alcançou um terço deste número: 12 (PSB).
Essas mudanças partidárias tendem a gerar uma expansão das siglas para diferentes eleitorados, que avaliam de que forma as campanhas presidenciais podem encontrar apoiadores locais, enquanto candidatos ao Legislativo também buscam pegar carona em campanhas para o Executivo nacional (efeito coattail[8]). O que houve, portanto, foi uma redistribuição natural de quadros pelas forças das candidaturas à Presidência. Temos, por um lado, o fortalecimento do PL, capitaneado pela candidatura mais competitiva à direita. E, por outro lado, a manutenção do PT como protagonista à esquerda do espectro ideológico, algo esperado pelo fato de ser o atual governo e, também, por destacar-se sentido à reeleição. A partir de agora, será importante avaliar as candidaturas que o PL e o PT construirão pelos estados. Os deputados “conquistados” na janela cumprirão um papel importante em suas respectivas regiões para sobreviverem politicamente na carona dos presidenciáveis e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para o seu presidenciável captar eleitores na região.
[1] Cientista político, doutor pela USP e parceiro da KAS.
[2] Professor adjunto no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília e conselheiro consultivo na Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (ABRAPEL). E-mail: joscimar.silva@unb.br
[3] https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-04/governo-federal-faz-mais-duas-trocas-em-ministerios-antes-das-eleicoes
[4] Cientista político, mestre e doutorando pela Unicamp, com período como pesquisador-visitante na Harvard University. É professor no curso de Pós-Graduação em Ciência Política na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e atua como consultor na Metapolítica Consultoria.
[5]https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/04/06/quem-sao-os-governadores-que-deixaram-mandatos-para-disputar-a-eleicao.ghtml. Acesso em 16 de abril de 2026.
[6]https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/04/04/ao-menos-17-ministros-deixaram-governo-para-concorrer-as-eleicoes-veja-quem-entra-e-quem-sai.ghtml. Acesso em 16 de abril de 2026.
[7] https://www.nexojornal.com.br/grafico/2026/04/08/janela-partidaria-2026-deputados-federais-trocas-partido. Acesso em 16 de abril de 2026.
[8] Conhecido pela capacidade do candidato ao Executivo influenciar positivamente a votação de candidatos de sua legenda ao Legislativo (Vasquez, Curi e Silva, 2021).