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Brasil em Foco

Série Brasil em Foco 06/2026

O que dizem as pesquisas sobre as eleições para o Senado / Soberania digital começa com infraestrutura: avaliando a expansão de data centers no Brasil

Baixe gratuitamente e leia a nova edição da série Brasil em Foco. No mês de junho são destacados dois temas fundamentais para a democracia brasileira em 2026. No primeiro artigo, o panorama das pesquisas eleitorais para o Senado aponta o avanço de partidos de direita e perdas relevantes para legendas hoje dominantes, mostrando como o pleito de 2026 pode reconfigurar o equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo nos próximos oito anos. O segundo texto analisa a expansão de data centers no país e expõe a defasagem entre o potencial energético brasileiro e a capacidade efetiva de processamento de dados, revelando os riscos de uma soberania digital meramente discursiva caso não venha acompanhada de infraestrutura própria e de um quadro regulatório capaz de ancorar essa vantagem competitiva em benefícios para o mercado interno.

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O que dizem as pesquisas sobre as eleições para o Senado

Humberto Dantas[i]

Na primeira semana de junho estudantes de pós-graduação em Ciência Política da Fesp-SP fizeram levantamento das pesquisas que dimensionam as intenções de voto para as 54 vagas ao Senado em 2026. O eleitor brasileiro tem severas dificuldades de compreender o voto em dois nomes, e os institutos não têm facilidade para dimensionar estas escolhas. Em 2018, diante do desejo por renovação política, ascensão do bolsonarismo e dificuldades cognitivas, alguns resultados surpreenderam. Ainda assim, parece relevante compreender como ficaria o Senado caso as eleições fossem nas datas dos levantamentos mais recentes encontrados. Importante salientar aqui, que as convenções partidárias definem nomes até agosto, e as pesquisas nem sempre trabalham com quem estará efetivamente nas urnas em outubro.

Existem pesquisas realizadas entre março e junho para todos os estados. Tendo em vista os 54 senadores que têm mandatos em disputa, muitos não tentarão se manter. Atualmente, o PSD tem 10 vagas para defender, o MDB oito, o PT sete, PL e PSB seis cada um, PSDB e Podemos três. Estas são as maiores legendas a colocarem postos em disputa, lembrando que o mandato de senador tem oito anos de duração. Em termos ideológicos, a direita precisa defender 28 vagas, o centro, com PSDB e MDB, seguindo classificação da Ciência Política, onze, e a esquerda quinze, destacando que aferições ideológicas, sobretudo nos estados, é desafio complexo.

Em relação aos 54 nomes atuais cujos mandatos se encerram, apenas quatro lideram pesquisas. Outros dez senadores atuais estão em segundo lugar em seus estados. Existem ainda nove senadores com mandato que aparecem em terceiro ou quarto lugar em suas unidades com ao menos 10% das intenções de votos. Assim, 23 parlamentares que estão em Brasília se mostram competitivos, ou seja, hoje se espera uma alteração significativa, em termos nominais, superando 55% dos 54 nomes e quase 40% de todo o Senado. Parte desses novos nomes é, tradicionalmente, formada por governadores. Seis deles, reeleitos em 2022, lideram pesquisas.

Em termos ideológicos, a direita conquistaria 29 vagas (54%), o centro (apenas com o MDB) ficaria com onze vagas (20% das cadeiras em disputa) e a esquerda teria treze (24%). Em termos partidários, à esquerda o PT ganharia uma vaga em relação ao que tem hoje. PDT e PSB, no entanto, perderiam espaço, e Rede e PSOL ganhariam um posto cada. Ao centro, o MDB conquistaria 11 cadeiras, acrescentando volume aos oito postos que hoje tem entre os 54 senadores em término de mandato. O PSDB, por sua vez, deixaria de ter representatividade. Na direita, o grande avanço: o PL iria de seis para dez vagas, o PSD seguiria caminho oposto, indo de dez para cinco, sendo que o União Brasil subiria de um para quatro nomes e somado ao Progressistas, em lógica de federação, somariam oito.

O último exercício aqui está associado a como ficaria o Senado caso o terço que lá está, e tem mandato até 2031, fosse somado aos eleitos em 2026 com base nas pesquisas atuais. Os partidos de direita chegariam a 52 vagas (64%), o MDB teria doze nomes (15%) e a esquerda ficaria com 17 senadores (21%). O PL teria a maior bancada (20), o MDB ficaria com doze, o PT com onze e o PSD com oito. PP (sete) e União Brasil (seis), federados, atingiriam treze nomes. Tais resultados mostram que Lula reeleito continuará com dificuldades extremas de governar, e um novo presidente, provavelmente da direita, terá espaço para diálogo mais próximo ideologicamente, o que não significa que o pragmatismo parlamentar será abandonado e a governabilidade não cobrará seu preço, lembrando que senadores podem trocar livremente de partido.

 

 

Soberania digital começa com infraestrutura: avaliando a expansão de data centers no Brasil

João Victor Archegas[ii]

No Brasil, muito se fala em soberania digital, mas pouco sobre o que a sustenta na prática. A discussão costuma se concentrar em dados, riscos algorítmicos e leis de proteção, dimensões logicamente importantes, mas que pairam sobre uma camada mais elementar e frequentemente ignorada: a infraestrutura digital.

Não há soberania sem infraestrutura, e a infraestrutura da inteligência artificial (IA) atende por um nome específico: data centers. São essas instalações que armazenam, processam e distribuem as informações que sustentam a economia digital. Quem não detém capacidade de processamento dificilmente terá controle sobre o que dela resulta. É a diferença entre ser desenvolvedor ou mero consumidor de tecnologias emergentes baseadas em IA.

Assim, à medida que o mundo migra da computação geral para uma economia movida a IA, vai se aprofundando o que se convencionou chamar de "compute divide"; a distância crescente entre as nações que detêm poder de processamento e aquelas que apenas o consomem. Sem construir essa infraestrutura localmente, um país acaba condenado a uma posição subordinada na cadeia de valor que definirá as próximas décadas de desenvolvimento e inovação.

A boa notícia é que o Brasil não parte de uma posição de estrita fragilidade. O país emergiu como candidato a polo da transição verde da computação de ponta, movido pelo conceito de powershoring—ou seja, a realocação de processos industriais intensivos em energia para locais que oferecem eletricidade abundante, barata e limpa. Nossa vantagem competitiva tem origem na matriz energética brasileira: 88% da oferta interna de energia é renovável. Em um mercado global ávido por novos data centers e capacidade de processamento, essa é uma carta valiosa, e o entusiasmo já se traduz em números.

O Redata, uma proposta de regime especial de tributação de data centers inaugurado no Brasil por medida provisória em 2025, provocou um salto de 32% nos pedidos de conexão de novos data centers à rede elétrica; se todos os projetos hoje planejados se concretizarem, a capacidade brasileira pode crescer até 26 vezes. Diante disso, o pessimismo que por vezes domina o debate parece desproporcional. Os receios sobre consumo de água e energia são legítimos, mas não inexoráveis: em 2024, os data centers responderam por 1,7% do consumo elétrico nacional, e o uso de água representou apenas 0,003% do total consumido no país em 2022, percentual sustentado pela migração para sistemas de resfriamento em circuito fechado, que devem responder por 90% dos data centers brasileiros até 2030.

Reconhecer a oportunidade, contudo, não basta. Falta ao Brasil aquilo que separa um ciclo de investimentos de um projeto de desenvolvimento nacional: coesão entre visão, política pública e moldura regulatória. Sem esses elementos, corremos o risco de fornecer recursos naturais sob a forma de processamento de dados para, em seguida, consumir as aplicações deles derivadas, arcando também com as externalidades ambientais. O desafio não é frear a expansão, mas ancorá-la em uma estratégia nacional que garanta benefícios ao mercado interno. Não se trata de preocupação abstrata: cerca de 60% dos dados brasileiros são processados no exterior e o país detém apenas 40% da capacidade local necessária para processar o que consome.

Era justamente esse o mérito do Redata, que condicionava incentivos fiscais a contrapartidas inteligentes, como a "regra dos 10%", que reservava parcela da capacidade de processamento ao mercado doméstico, a empresas, instituições de pesquisa e ao poder público. A proposta era promissora, mas expirou no início de 2026 sem ser convertida em lei, e seu conteúdo agora é remendado em um novo projeto. Foi uma oportunidade desperdiçada, que nos obriga a reiniciar discussões que já deveriam estar mais avançadas.

O Brasil tem energia, escala e uma janela de oportunidade. O que ainda não tem é um moldura político-institucional capaz de transformar vantagem geográfica em soberania efetiva.

 

 

[i] Doutor em ciência política pela USP, coordenador da graduação em Gestão Pública da FipeEES e da pós-graduação em ciência política da FESP-SP. Diretor do Movimento Voto Consciente e parceiro da KAS-Brasil em ações de educa­ção para a democracia e análise política.

 

[ii] Professor de Direito na FAE e Coordenador no Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). Mestre e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Master of Laws pela Harvard Law School, onde foi Gammon Fellow de excelência acadêmica.   

 

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Reinaldo Themoteo KAS
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