As coligações no federalismo partidário-eleitoral
Humberto Dantas[i]
Nesse ano há 199 candidaturas a governador nos 27 estados brasileiros segundo dados mais atuais do TSE. As regras para estas eleições não sofreram mudanças expressivas, ao contrário dos cargos disputados proporcionalmente – deputados. Assim, o total de nomes lançados desde 1998 não se alterou tanto. Há uma variação entre 151 (1998) e 218 (2002) postulantes, explicada por distintas estratégias, discreta variação no número de partidos e questões conjunturais.
Uma máxima da Ciência Política afirma que a junção de países federativos (divididos em estados) com sistemas partidários nacionais gera tendência a comportamentos descentralizados das legendas. Em resumo: acordos são mais explicáveis em cada estado do que em nível nacional. Isso explicaria porque em 1998, por exemplo, PT e PSDB polarizavam o país nas eleições presidenciais e estavam coligados em algumas disputas por governos estaduais.
Com a acentuação do caráter mais cristalizado da polarização entre esquerda e direita no país, haveria uma tendência a assistirmos a escassez de algumas alianças. Em 2010 e 2014, por exemplo, isso já dava sinais de evidência entre os tradicionais polos da disputa – PT e PSDB. Tendo em vista os 12 maiores partidos do período, a associação entre tais legendas foi a única que não ocorreu em torno de um nome para governador nos dois anos. PT e DEM, por exemplo, disputaram governos unidos à época. Aqui devemos considerar que entre 2002 e 2006 vigeu a artificial verticalização das coligações imposta pelo TSE.
Dito isso, duas questões chamam a atenção: o que teria ocorrido entre 2018 e 2022? O que há agora em 2026 em torno do “federalismo partidário-eleitoral”? Em 2018, mais uma vez, PSDB e PT não se uniram nos estados, mas a partir daquele pleito os tucanos perderam força, ganhando destaque uma tendência acentuada à direita representada pelo bolsonarismo. Em 2022, tendo deixado o PSL em 2019 e se filiado ao PL em 2021, Bolsonaro proibiu coligações com o PT. Tal aliança, que caracterizou a chapa Lula-Alencar em 2002, se repetiu em 29% dos estados no período de 1994 a 2014, ou seja, por mais que Liberais e Trabalhadores pudessem ofertar semblante de algo distinto, a conveniência descentralizada estadual se mostrou relevante.
Em 2026, parece possível dizer que tal tendência se manteve. PT e PL não formam coligações em qualquer estado, replicando a ideia de polarização. Aqui merece registro que o PSB não está com o PL em qualquer estado, assim como o PSDB não se uniu ao PT. Mas o que mais chama a atenção é o comportamento de dois partidos. O primeiro, a federação União Progressista, formada por PP, que esteve com Bolsonaro em 2022, e União Brasil, fruto da junção do Democratas com o PSL, partido que elegeu o ex-presidente em 2018. A agremiação ficou neutra no pleito presidencial, por mais esperado que fosse caminhar com Flávio Bolsonaro. Com o PL aparece em mais de dez estados, mas está com o PT em quatro alianças locais. Já o Republicanos, que também esteve com Bolsonaro em 2022 e de quem era esperado um apoio ao presidenciável do PL que não ocorreu, tem o PT como parceiro em sete estados. Flávio reclamou de pressão do Planalto para esvaziar sua chapa, mas ao que tudo indica, estadual e nacionalmente os partidos fazem o que é “mais estratégico”. Que tipo de recurso “não republicanos” é posto sobre a mesa para a tomada de decisões associadas a apoiamentos é difícil de calcular, mas é fato que a lógica descentralizada ainda parece capaz de explicar o comportamento das legendas em realidade eleitoral quando juntamos federalismo e partidos nacionais.
O enfrentamento dos eventos climáticos extremos nas capitais brasileiras
Fernando Preusser de Mattos[ii]
No Brasil e no mundo, fica mais evidente a cada ano a urgência de se encontrarem soluções diante do aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos. No meio urbano, onde vivem quase 90% da população brasileira, fenômenos como chuvas torrenciais, tempestades severas ou ondas de calor rapidamente se transformam em desastres, impondo um custo humano irreparável e graves consequências econômicas, sociais e ambientais. Adaptar as cidades e, em particular, as capitais brasileiras a cenários climáticos cada vez mais extremos é uma tarefa inadiável.
Parte da solução envolve compreender o problema. Ao contrário do que nos acostumamos a dizer, desastres não são naturais, mas sim produto de uma combinação de fatores que incluem não só ameaças naturais, mas também os níveis de exposição e vulnerabilidade de territórios e comunidades. Nesses dois últimos fatores, pouco ou nada há de natural: são ações ou omissões humanas que definem como e onde vivem as pessoas, em que condições socioeconômicas se encontram e quão preparadas estão para prever, preparar-se e responder aos efeitos das mudanças do clima.
O quadro atual é bastante desafiador: levantamento recente do Observatório do Clima aponta que 4.500 municípios no Brasil (80% do total) apresentam vulnerabilidade média, alta ou muito alta a desastres geo-hidrológicos, com metade das capitais com maior risco de inundações e deslizamentos situadas na região Nordeste.[iii] Capacidades institucionais limitadas são outro agravante: um estudo da Confederação Nacional de Municípios (CNM) abrangendo 3.560 prefeituras aponta que 68% delas não se veem preparadas para enfrentar eventos extremos, enquanto 57% não contam com sistemas de alerta para desastres.[iv]
As consequências são conhecidas, e os custos da inação, fartamente documentados. Entre 2013 e 2025, segundo a CNM, foram registradas mais de 3 mil mortes decorrentes de desastres, além de perdas econômicas da ordem de R$ 785,4 bilhões. Nesse período, a maior incidência de mortes foi registrada na região Sudeste (48,1% do total), ao passo que a região Sul concentrou o maior percentual de prejuízos econômicos (38% do total). No Rio Grande do Sul, as enchentes e deslizamentos que atingiram 96% dos municípios do estado entre abril e maio de 2024 resultaram em mais de 200 mortos e desaparecidos e em um impacto econômico estimado em aproximadamente R$ 88,9 bilhões.[v]
As cenas da capital Porto Alegre inundada por semanas mobilizaram o Brasil e repercutiram mundialmente, e a imagem de um cavalo ilhado sobre o telhado de uma casa na vizinha Canoas virou ao mesmo tempo símbolo da tragédia e retrato do absurdo de se viver em tempos de emergência climática. Desde então, a experiência em curso no estado mostra que não há solução única para adaptar as cidades: são necessárias, simultaneamente, intervenções estruturais, como novos sistemas de proteção contra cheias e obras de contenção de encostas, e medidas não estruturais, como a revisão de planos diretores, a elaboração de planos de contingência e melhores sistemas de monitoramento e alerta precoce.
Transformações dessa natureza só são possíveis com a cooperação entre os diferentes níveis de governo, sem a qual não se podem viabilizar os investimentos públicos necessários nem incitar o apetite ainda incipiente do setor privado diante das oportunidades da adaptação. A cooperação internacional também se mostra um aliado importante na construção de resiliência, e não faltam parceiros competentes com os quais colaborar, incluindo governos estrangeiros, bancos multilaterais de desenvolvimento e organismos do sistema ONU.
Fazer da adaptação uma agenda permanente de desenvolvimento urbano talvez seja o maior desafio. A reconstrução resiliente do Rio Grande do Sul mostra que adaptação não se faz apenas com obras, tampouco da noite para o dia; do contrário, demanda tempo e requer uma sólida base de dados e diagnósticos, articulação multinível e capacidades institucionais que permitam orientar o planejamento, antecipar riscos e tomar decisões para o curto, médio e longo prazos.
[i] Doutor em ciência política pela USP, coordenador da graduação em Gestão Pública da FipeEES e da pós-graduação em ciência política da FESP-SP. Diretor do Movimento Voto Consciente e parceiro da KAS-Brasil em ações de educação para a democracia e análise política.
[ii] Doutor em Ciência Política pela Universität Hamburg (UHH), Mestre em Ciência Política e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente exerce a função pública de subsecretário na Secretaria da Reconstrução Gaúcha (SERG), Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
[iii] https://oc.eco.br/mais-de-80-dos-municipios-brasileiros-sao-vulneraveis-a-desastres-climaticos/.
[iv] https://cnm.org.br/biblioteca/exibe/16553.
[v] https://publications.iadb.org/pt/avaliacao-dos-efeitos-e-impactos-das-inundacoes-no-rio-grande-do-sul.