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Brasil em Foco

Série Brasil em Foco 10/2026

Maioria ninguém tem, se aluga / Da COP 30 à COP 31 / Governadores, federalismo e poder regional em 2026

A nova edição da série Brasil em Foco reúne três análises sobre desafios centrais do Brasil após as eleições de 2026. Humberto Dantas examina a composição do Congresso Nacional e mostra que a governabilidade dependerá da construção permanente de acordos, característica do presidencialismo de coalizão brasileiro. Em seguida, Elze Rodrigues discute os limites do multilateralismo climático e o papel que o Brasil poderá desempenhar na COP 31, destacando a necessidade de transformar liderança política, cooperação internacional e financiamento em resultados concretos para uma transição global justa. Por fim, Bruno Schaefer analisa a nova configuração política dos estados, marcada pelo avanço da direita nos governos e nas Assembleias Legislativas, e avalia seus impactos sobre a coordenação federativa. O autor identifica a reforma tributária, as dívidas estaduais e a segurança pública como temas decisivos na relação entre a União e os governadores nos próximos anos.

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Maioria ninguém tem, se aluga

Humberto Dantas[i]

Lula tem maioria no Congresso Nacional? A resposta é: depende. Em tese, quem ganha a eleição chega ao Planalto com uma base montada. Na prática, ninguém no Brasil governa com uma minoria que já existe — governa com uma maioria a ser construída. Isso tem nome: presidencialismo de coalizão. O presidente é eleito “sozinho”, tem consigo seu partido, leva algumas legendas da coligação, mas só conquista espaço e faz valer sua agenda se costurar um acordo com diversos partidos que ele não controla.

O que Lula de fato tem é uma minoria supostamente fiel — o PT e meia dúzia de siglas de esquerda, algo perto de um quarto da Câmara. Serão 88 deputados da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e mais 36 de PSB, PDT e a Federação PSOL-Rede, que estavam coligados com Lula. Pronto: 124 nomes, ou 24% da Câmara. Do outro lado, sobra o PL com expressivos 121 deputados eleitos, número que num só partido não inteirava uma centena desde 1998 com o PFL, hoje diluído em uma mudança de nome, uma fusão e uma federação. Some mais 10 aqui, pois o Novo é linha auxiliar: 131. Esses dois universos polarizados, PT e PL, configuram quem votariam com Flávio ou com Lula, espelhando coligações majoritárias que fizeram no pleito presidencial – o PL disputou o pleito sozinho, o Novo é troco.

E o resto é negociação. Mais fácil seria para o PL, pois parte de seus quadros e o Centrão tendem a se misturar mais facilmente em termos ideológicos. Mas quem ganhou foi Lula. O que as pesquisas davam como improvável, não foi impossível. E o presidente governou: de 2003 a 2010, de 2023 a 2026 em situações semelhantes. Com dificuldades? Sim, incluindo condenações por corrupção. Mas o fato é: governa-se, por mais que agora seja MAIS difícil. Mas em tese, basta pagar a conta, lembrando que inicialmente, o governo começa com 131 a menos, assim como Flávio começaria com 124 a menos na conta da esquerda.

E quem cobra essa conta? O Centrão, que não é um partido, é um estilo de vida, um método de viver legislativo: um bloco considerado fisiológico cuja fidelidade dura o tempo da negociação. Assim, a Câmara não é "contra" Lula por convicção. Se o Planalto, inclusive, apoiar a reeleição de Hugo Mota e Davi Alcolumbre nas casas congressuais, e aceitar um nome do grupo para a vaga aberta no STF, o caminho do diálogo se pavimenta. Detalhe: no Senado será mais complexo.

Assim, do que Lula depende? De três elementos. Orçamento: emenda liberada na hora certa vale mais que discurso. Alinhamento com os presidentes da Câmara e do Senado, que controlam a pauta. E tempo. Governo que negocia com pressa paga caro; governo que espera o cálculo eleitoral do parlamentar paga menos.

É aqui que bato na mesma tecla de sempre. Muita gente lê esse quadro e conclui que a política é suja, que o Congresso só atrapalha, que bastaria um líder forte para passar por cima disso tudo. Cuidado: você comprou essa falácia sem pensar. Não existe atalho. A negociação não é o defeito do sistema — ela é o sistema que a Constituição de 1988 nos deu. Não se pode fingir que maioria nasce pronta. No fim, "quanta maioria o Lula tem?" é a pergunta errada. A certa é: quanto ele está disposto a negociar, para quem, e por quanto tempo? Por fim: o Centrão não aceita qualquer coisa, e sinais práticos, para além das simbologias políticas citadas, terão que ser dados. O ajuste fiscal pode ser um primeiro passo.

 

Da COP 30 à COP 31: os limites do multilateralismo e o papel do Brasil na agenda climática global

Elze Rodrigues[ii]

A COP 31, prevista para novembro de 2026, em Antália, na Turquia, será um teste para a capacidade internacional de transformar compromissos climáticos em ações efetivas. O governo brasileiro que participará da conferência é o mesmo que se propôs a sediar a COP 30, em Belém, mas chega fortalecido pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A vitória sobre um adversário que expressou posições céticas quanto à influência humana nas mudanças climáticas oferece respaldo político à continuidade da agenda ambiental brasileira. O desafio será converter esse endosso eleitoral em resultados concretos.

Sob a presidência brasileira, a COP 30 adotou decisões relevantes, mas também evidenciou os limites do multilateralismo climático. A ausência de uma delegação oficial dos Estados Unidos, potência econômica e importante emissor histórico, expôs as dificuldades de construir uma resposta verdadeiramente global. Além disso, divergências entre os países impediram a inclusão de um compromisso explícito sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis no acordo final. A busca por consenso, embora essencial à legitimidade das negociações, pode limitar a ambição dos resultados diante de interesses econômicos e geopolíticos conflitantes.

Nesse contexto, o Mutirão Global contra a Mudança do Clima, promovido pela presidência brasileira, buscou mobilizar governos, setor privado, sociedade civil e instituições financeiras em torno da implementação do Acordo de Paris. A presidência também impulsionou roadmaps para orientar a transição energética e o enfrentamento do desmatamento, além do Roteiro de Baku a Belém, voltado à mobilização de US$ 1,3 trilhão anuais em financiamento climático até 2035. Embora politicamente relevantes, essas iniciativas dependem da adesão das grandes potências, de recursos previsíveis e de mecanismos de acompanhamento para produzir mudanças efetivas.

As dificuldades de implementação refletem as desigualdades entre Norte e Sul Global. Enquanto os países desenvolvidos concentram grande parcela das emissões históricas e dispõem de maior capacidade financeira e tecnológica, muitas nações em desenvolvimento enfrentam impactos climáticos severos com recursos limitados. O Brasil pode atuar como articulador entre esses grupos, defendendo responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e financiamento adequado à mitigação e à adaptação. A transição ecológica também oferece oportunidades econômicas, da energia renovável à bioeconomia, mas exige políticas que distribuam seus benefícios de maneira justa.

A reeleição de Lula fortalece a perspectiva de continuidade dessa atuação internacional. Durante a campanha, Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, engajou-se na defesa da reeleição presidencial, associando a disputa à preservação dos avanços ambientais. Sua participação deu visibilidade à pauta climática no debate eleitoral. O resultado oferece condições políticas para manter essa agenda, embora sua efetividade dependa também das decisões governamentais, da composição do Congresso e da capacidade de enfrentar resistências internas.

Na COP 31, a articulação entre as presidências brasileira, turca e australiana será importante para preservar o impulso de Belém. Diferentemente de um cenário de encerramento de mandato e transição para um governo de orientação oposta, o Brasil chega à conferência com perspectiva de continuidade institucional e respaldo eleitoral renovado. Isso cria condições para uma atuação mais propositiva em defesa dos roadmaps, do financiamento climático e da cooperação Norte-Sul. Contudo, a influência brasileira não substitui a participação efetiva das grandes economias, indispensável à eficácia dos compromissos multilaterais.

Entre Belém e Antália, está em disputa a capacidade do sistema multilateral de responder à crise climática. A reeleição de Lula fortalece a posição política do Brasil, mas esse capital deverá ser convertido em cooperação, financiamento e resultados verificáveis para uma transição global justa.

 

Governadores, federalismo e poder regional em 2026

Bruno Schaefer[iii]

Introdução

A eleição de 2026 levou aos estados o mesmo movimento que levou ao Congresso: a direita domina, o PL foi o partido mais vitorioso, o centro quase desapareceu e o PT sustentou a hegemonia na esquerda. Com a reeleição de Lula (51,8% dos votos válidos), o país terá um presidente de esquerda diante de governadores de direita em 20 dos 27 estados. Comparado a 2022 (Schaefer, 2022), o quadro mostra governadores com bases parlamentares menores e um federalismo em que a coordenação entre os Executivos volta a ser o problema central.

 

Direita domina

A partir de 2027, a direita governará 20 estados e 80% do eleitorado, contra 13 estados e 60% em 2022. O PL foi de dois para seis governadores: os três do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Roraima. PSD (5), PP (4) e Republicanos (4), que inclui São Paulo e Minas Gerais, completam o bloco com o Podemos, no Pará. O União Brasil, que tinha quatro governadores, não elegeu nenhum.

A esquerda caiu de sete para quatro governos, todos do PT no Nordeste; o PSB perdeu os três que tinha. O centro ficou com Alagoas, Goiás e Tocantins. Dos nove governadores de primeiro mandato que concorreram, oito se reelegeram (89%, contra 93% em 2022), as duas maiores taxas desde 2002.

Figura 1: Governadorias por bloco ideológico

Observação: as figuras podem ser vistas no pdf.

 

Situação nas Assembleias

Nas Assembleias, a direita tem 641 das 1.059 cadeiras (60,5%) e maioria absoluta em 22 das 27 Casas, contra 15 em 2022. O PL virou o maior partido estadual, com 212 deputados (128 em 2022). O número efetivo de partidos mediano caiu de 11,1 em 2018 para 8,2 em 2022 e 6,6 em 2026.

Ainda assim, os governadores chegam com bases menores. A coligação vencedora elegeu, na mediana, 49% da Assembleia (58% em 2022), e só 12 dos 27 eleitos têm maioria absoluta com ela (16 em 2022). O paradoxo é da direita: suas alianças ficaram mais homogêneas e menores, com mediana de 45% das cadeiras; Cleitinho (MG) terá 8% e Eduardo Braide (MA), 10%. Os governadores do PT, eleitos com coligações amplas, têm mediana de 70%. Para a direita, o ultrapresidencialismo estadual (Abrucio, 1998) dependerá de coalizões formadas depois da eleição.

 

Figura 2: Base dos governos (a partir das coligações)

 

Figura 3: Blocos ideológicos nas Assembleias Legislativas

 

Coordenação federativa: Lula e os governadores

Em 2022, o desafio era repactuar o federalismo depois do "federalismo bolsonarista" (Abrucio et al., 2020), marcado pelo conflito entre a União e os estados na pandemia. Lula assumiu em 2023 com sete governadores de esquerda; em 2027, terá apenas quatro.

A oposição nos estados, porém, não é homogênea. Os seis governadores do PL formam seu núcleo. Os de PSD, PP e Republicanos pertencem a partidos que ocuparam ministérios no governo Lula e dependem de transferências federais, e tendem a combinar oposição eleitoral e cooperação administrativa. São Paulo é o caso de maior peso: Tarcísio, reeleito com 62,7%, é um potencial candidato em 2030.

 

O que muda até 2030

Três temas concentram o potencial de conflito: a reforma tributária (EC 132/2023), cuja substituição do ICMS pelo IBS começa neste mandato; as dívidas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, todos governados pela direita e dependentes da renegociação com a União (Propag, 2025); e a segurança pública, em que a ampliação do papel da União esbarra em governadores que fazem do tema uma bandeira.

 

Referências

ABRUCIO, F. L. Os barões da federação: os governadores e a redemocratização brasileira. São Paulo: Hucitec/DCP-USP, 1998.

ABRUCIO, F. L. et al. Combate à COVID-19 sob o federalismo bolsonarista: um caso de descoordenação intergovernamental. Revista de Administração Pública, v. 54, p. 663-677, 2020.

SCHAEFER, B. M. Eleições 2022 nos estados brasileiros: desafios aos novos governadores. Cadernos Adenauer, v. XXIII, n. 4, p. 117-138, 2022.

 

 

 

[i] Doutor em ciência política pela USP, coordenador da graduação em Gestão Pública da FipeEES e da pós-graduação em ciência política da FESP-SP. Diretor do Movimento Voto Consciente e parceiro da KAS-Brasil em ações de educa­ção para a democracia e análise política.

[ii] Doutora em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP). Assessora Técnica da Superintendência de Administração do Meio Ambiente da Paraíba (SUDEMA).

[iii] Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCH-UFRGS), é professor de Ciência Política no IESP-UERJ.

 

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