O que temos diante dos olhos?
Humberto Dantas 1
Dia 29 de abril de 2026 entrou para a história política do Brasil. O Senado Federal rejeitou indicação do presidente da República para o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), algo que não ocorria desde 1894 sob o governo de Floriano Peixoto. Nominalmente, o inédito resultado para os padrões dos séculos XX e XXI recaiu sobre Jorge Rodrigo Araújo Messias, servidor de carreira da Advocacia-Geral da União, atual Advogado Geral da União e procurador da Fazenda Nacional desde 2007. Sobre ele não há o que dizer, isso pouco importa. É fácil perceber que existe gente muito menos preparada na história do Supremo Tribunal Federal, ou seja, tecnicamente pode ser figura adequada, na hora errada.
A Constituição Federal de 1988 afirma que a nomeação dos onze ministros do STF, a corte superior brasileira, recai sobre o titular do Palácio do Planalto, “depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal”. Este sujeito tem que ser brasileiro nato, maior de 35 anos de idade, e deverá possuir notável saber jurídico e reputação ilibada. Os dois primeiros itens, Messias atende: 46 anos, nascido em Recife-PE. Sobre os outros dois fica a dúvida: o Senado Federal, e até mesmo o presidente da República, têm condições e disposição absoluta para avaliarem tais requisitos? Se a resposta para a necessidade de se compreender o que é “saber jurídico” e “reputação ilibada” não for assertiva e positiva, entra em cena o sentido do que temos em torno de uma indicação desse tipo no Brasil.
Não são poucas as reportagens posteriores à indicação presidencial e anteriores aos procedimentos do Senado ao longo das décadas recentes que dão conta de questionar currículos dos mais diferentes nomes envolvidos em tais processos. É pouco provável que não existam razões de sobra para questionarmos saberes e reputações de qualquer pessoa que consiga chegar à condição de indicada. Assim, a rejeição não é sobre Messias, e exige um exercício contrário.
Se o Senado recusou um nome por razões diferentes do que poderia levá-lo a fazê-lo, a despeito de parecer óbvio que seu gesto é legal e legítimo, o que explicaria a aceitação de 22 nomes desde o governo Itamar Franco até hoje, por exemplo? Este é o ponto a ser debatido: quais critérios e condições que moldaram a composição do STF desde findado o processo de redemocratização do país? Um órgão absolutamente político que detém a responsabilidade de julgar constitucionalidades deveria ser nomeado de maneira menos política e com mais tecnicidade? Eis o grande desafio: Legislativo e Executivo, certamente, não estão dispostos a perder poder nesse jogo, assim como aparentemente, a rejeição vivida em 2026 transparece apenas mais um capítulo de um grande jogo de interesses.
E o que sabemos sobre o resultado? O Senado parecia disposto a ter outro nome. O STF se envolveu na indicação, e não tem sido incomum que os ministros se posicionem, quando em tese parece que a neutralidade e a distância seriam mais razoáveis. O presidente da República, que no atual mandato assistiu à aprovação de seu advogado pessoal e de um aliado político-partidário, não parece ter compreendido o instante. Resultado: deu errado. E a despeito de quem seja Messias, fica a sensação: em momento de anormalidade, talvez seja a hora de perguntar o que uma indicação desse tipo representa para o país e o quanto ela deve ser infinitamente mais condizente com o que a Constituição sugere. Mais uma vez: não é sobre a rejeição, mas sim sobre o processo e o que explicam as nomeações. Se historicamente normalizamos os aceites, a recusa nos obriga a repensar o que tudo isso representa.
1 Cientista político, doutor pela USP e parceiro da KAS.
Como são feitas as pesquisas eleitorais
Luciana Santana[1]
Rita Higino[2]
As pesquisas eleitorais talvez sejam um dos instrumentos mais influentes, e mais incompreendidos, das democracias contemporâneas. Em períodos eleitorais, elas organizam estratégias de campanha, pautam a cobertura jornalística, influenciam mercados, orientam o eleitorado e ajudam a interpretar tendências do comportamento político. Ao mesmo tempo, tornaram-se alvo frequente de desconfiança, especialmente em sociedades marcadas por polarização política, fragmentação digital e erosão da confiança institucional. Afinal, como são feitas as pesquisas eleitorais e por que elas continuam sendo tão relevantes?
Em termos gerais, pesquisas eleitorais são estimativas estatísticas da opinião pública realizadas a partir de amostras do eleitorado. Como é impossível entrevistar todos os cidadãos aptos a votar, os institutos selecionam. A lógica é simples: em condições metodologicamente controladas, uma pequena parcela da população pode refletir tendências gerais do conjunto do eleitorado. É desse princípio que derivam conceitos como margem de erro e nível de confiança, frequentemente mencionados durante as campanhas eleitorais.
As formas de coleta variam. Pesquisas presenciais ainda são consideradas as mais robustas em termos de controle amostral, sobretudo em países profundamente desiguais como o Brasil, onde o acesso à internet e aos meios digitais permanece socialmente desigual. A entrevista face a face permite alcançar segmentos menos conectados e regiões periféricas, reduzindo parte dos problemas de cobertura estatística. Em contrapartida, trata-se de um método caro, lento e logisticamente complexo. Em campanhas cada vez mais aceleradas pelas redes sociais, velocidade tornou-se variável decisiva.
As pesquisas telefônicas surgiram como alternativa mais rápida e menos custosa, mas enfrentam hoje dificuldades crescentes. A queda das taxas de resposta é um fenômeno internacional. O uso disseminado de celulares e filtros de chamada reduziu significativamente a disposição das pessoas em participar de entrevistas. Além disso, em contextos de forte polarização, determinados grupos do eleitorado passaram a demonstrar maior desconfiança em relação às instituições, à imprensa e aos próprios institutos de pesquisa, tornando-se mais resistentes ao contato de pesquisadores.
Nos últimos anos, pesquisas online, especialmente nas redes sociais, ganharam espaço impulsionadas pela celeridade e pelos custos reduzidos. Elas permitem acompanhar campanhas quase em tempo real, algo particularmente importante em ambientes políticos marcados por intensa circulação de informações e mudanças rápidas de opinião pública. Contudo, também apresentam limitações relevantes. Grande parte desses levantamentos depende de painéis digitais compostos por participantes voluntários, o que pode gerar distorções na representação do eleitorado, especialmente pela sobreposição entre engajamento político e presença digital.
O problema central é que pesquisas eleitorais não funcionam como previsões absolutas do resultado das urnas. Elas medem intenções de voto em determinado momento e estão sujeitas às transformações do ambiente político. Debates, crises econômicas, escândalos, campanhas negativas ou mobilizações digitais podem alterar rapidamente as preferências do eleitorado. Em cenários altamente polarizados, pequenas diferenças metodológicas, como período de coleta, distribuição territorial da amostra ou formas de ponderação estatística, podem produzir resultados distintos entre institutos sem que isso signifique necessariamente erro técnico ou manipulação. Seja como for, em contextos democráticos, pesquisas eleitorais seguem sendo instrumentos importantes para reduzir assimetrias informacionais.
[1] Professora de ciência política na Universidade Federal de Alagoas, no PPGCP/UFAL e PPGCP/UFPI. Doutora em
Ciência Política pela UFMG.
[2] Bacharela em Ciências Sociais e mestranda em Ciência Política pelo PPGCP/UFAL.
Desinformação eleitoral: a narrativa mais perigosa segue viva e sofisticada
Clara Becker[3]
O filme Dark Horse, que dominou o debate público na última semana após denúncias de que o ex-CEO e banqueiro Daniel Vorcaro teria desembolsado R$ 61 milhões para sua produção — valor que faria parte de um acordo total de R$ 134 milhões — traz elementos importantes para refletirmos sobre os desafios da integridade da informação nas próximas eleições.
O roteiro, vazado pela imprensa, inclui ataques ao STF e insinuações de fraude eleitoral. O letreiro final é particularmente revelador: “Em 2022, Bolsonaro perde a reeleição por um ponto e meio de diferença. Acusações de manipulação eleitoral e fraude se alastram. Manifestações ocorrem em todo o Brasil, em sua maioria pacíficas.”
Mais do que uma escolha narrativa, trata-se de um sinal político. O filme evidencia que semear dúvidas sobre a lisura do sistema eleitoral segue sendo uma estratégia deliberada — e persistente do bolsonarismo.
Desde 2018, observa-se o fortalecimento de narrativas que colocam em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro e a confiabilidade das urnas eletrônicas. Embora auditorias, testes públicos e sucessivas eleições não tenham produzido evidências de fraude, a desconfiança permanece disseminada em parcelas significativas da população. Pesquisa Genial/Quaest publicada em fevereiro de 2026 mostra que 43% dos brasileiros discordam da afirmação de que “as urnas eletrônicas são confiáveis”, enquanto 53% concordam. Entre os que se identificam como bolsonaristas, 77% não confiam nas urnas.
Democracias não sobrevivem apenas de eleições — elas dependem de que os derrotados reconheçam o resultado. Quando a confiança no processo eleitoral é corroída, o que se perde não é apenas a credibilidade de uma eleição, mas a própria base do pacto democrático.
No Brasil, essa corrosão já teve consequências concretas. As narrativas infundadas sobre fraude eleitoral foram um dos motores simbólicos que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023 — quando instituições foram invadidas em nome de uma eleição que nunca foi fraudada. Este pode ter sido o ponto mais crítico desse processo, mas não seu desfecho. A dúvida foi plantada. E, uma vez plantada, ela se torna difícil de erradicar.
Mas por que as urnas eletrônicas são um alvo tão recorrente — e eficaz — da desinformação?
Primeiro, porque são um sistema tecnológico complexo, pouco compreendido pela maioria da população. Essa opacidade técnica cria terreno fértil para teorias conspiratórias. Segundo, porque operam de forma invisível: não há cédula física, não há “prova” tangível para o eleitor comum. Isso facilita a construção de narrativas de suspeição. E, por fim, porque atacar a urna é atacar o coração do sistema democrático com um único golpe simbólico.
Ao longo dos anos, alguns boatos se repetem: que a urna não é auditável, que votos podem ser alterados remotamente, que há conexão com servidores externos ou que o sigilo do voto não é garantido. Todas essas alegações são falsas — e já foram amplamente desmentidas por especialistas, pelo Tribunal Superior Eleitoral e por iniciativas de checagem. Ainda assim, elas persistem. Porque a desinformação não depende de verdade — depende de circulação.
Desde 2021, o TSE mantém o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, em parceria com instituições públicas, plataformas e organizações da sociedade civil. Esses esforços são fundamentais, mas insuficientes diante da escala e sofisticação do problema.
E o cenário tende a se tornar ainda mais desafiador. Para as eleições de 2026, um novo vetor se impõe: a inteligência artificial generativa. Ferramentas capazes de produzir vídeos, áudios e imagens sintéticas com aparência realista tornam mais fácil, rápido e barato fabricar evidências falsas. Deepfakes de autoridades eleitorais, áudios manipulados de candidatos ou vídeos forjados de irregularidades em seções eleitorais já não são hipóteses distantes — são riscos concretos.
Em resposta, o TSE publicou a Resolução nº 23.755, que estabelece regras para o uso de IA em campanhas eleitorais, incluindo a obrigatoriedade de identificação de conteúdos sintéticos e a proibição de seu impulsionamento pago. É um passo importante, mas que exigirá capacidade de implementação, fiscalização e, sobretudo, compreensão pública.
Porque, no fim, a tecnologia pode evoluir — mas a confiança continua sendo humana. O que está em jogo não é apenas a veracidade de um conteúdo — é a confiança coletiva em um sistema que sustenta a democracia. E essa confiança, uma vez abalada, não se reconstrói com a mesma facilidade com que pode ser destruída.
[3] Cofundadora e diretora-executiva do Redes Cordiais, organização dedicada à promoção da educação midiática e de ambientes digitais mais saudáveis. Jornalista, atua há mais de uma década no enfrentamento à desinformação.