A nova edição da série Cadernos Adenauer apresenta um conjunto de artigos que investigam alguns dos principais aspectos da interseção entre a indústria de defesa e as novas tecnologias, oferecendo aos leitores textos que ajudem a compreender como esse setor se reinventa diante das transformações digitais e científicas, com atenção especial aos impactos econômicos, sociais e políticos no contexto brasileiro.
Novas tecnologias e sua aplicação militar
Thiago Borne
O presente artigo examina a relação entre tecnologia e guerra a partir de uma perspectiva histórica, institucional e estratégica. Parte-se do argumento de que as dinâmicas contemporâneas não representam uma ruptura absoluta, mas a intensificação de padrões recorrentes de interação entre inovação tecnológica e conflito armado, agora potencializados pela centralidade do setor privado e pela difusão de tecnologias de uso dual.
A Convergência NBIC: origem, atualidade e projeção de futuro
Clóvis Eduardo Godoy Ilha
Fábio Netto Pinheiro Grande
Hugo Fernandes Marques Freitas
Este artigo analisa a origem, a evolução e as perspectivas futuras da Convergência NBIC – a integração entre nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e ciências cognitivas. Essa convergência inspira-se nos debates das Conferências Macy e na cibernética, podendo ser entendida como um instrumento para potencializar as capacidades humanas físicas, cognitivas e sociais. O tema provoca a divergência entre duas correntes filosóficas: a tecnoética, baseada na responsabilidade ética do avanço tecnológico, e o transumanismo, que defende o aperfeiçoamento contínuo do ser humano por meio da tecnologia.
Economia da defesa e impacto industrial
Eduardo Siqueira Brick
A indústria de defesa não pode ser avaliada pelos mesmos critérios aplicados à indústria civil. Sua finalidade última é estratégica – a defesa da soberania e dos interesses nacionais –, e não econômica. Partindo dessa premissa, o artigo examina a relação entre economia, defesa e indústria, alertando para o risco de textos acadêmicos subestimarem a finalidade primordial dos investimentos no setor. Os conflitos recentes na Ucrânia e no Irã evidenciam que capacidade militar pressupõe uma indústria de defesa apta a suprir as Forças Armadas com meios, insumos e serviços essenciais.
Implicações éticas da inteligência artificial em sistemas autônomos no contexto da defesa
Joelmir Ramos
A incorporação crescente de inteligência artificial (IA) em sistemas autônomos tem reconfigurado de maneira estrutural a indústria de defesa contemporânea, deslocando o eixo da superioridade estratégica do domínio puramente físico para o domínio informacional, algorítmico e infraestrutural. Este artigo analisa as implicações éticas, políticas e geopolíticas dessa transformação, com ênfase na delegação de decisões críticas a sistemas automatizados e na natureza dual-use das tecnologias emergentes.
Guerra híbrida como coerção politicamente dirigida: tecnologia, ambiguidade e vulnerabilidade estratégica
Jorge M. Lasmar
A guerra híbrida constitui uma forma contemporânea de coerção politicamente dirigida, na qual instrumentos militares e não militares são combinados para produzir efeitos estratégicos sob condições de ambiguidade. O artigo compara conceitos, autores e debates doutrinários a partir de uma abordagem qualitativa e teórico-conceitual, revendo conceitos sobre guerra híbrida, ambiguidade estratégica, tecnologia, fricção, vulnerabilidades sistêmicas, e o pensamento de Clausewitz.
Cenários de tecnologia, defesa e democracia no Brasil até 2050: autonomia militar interna, heteronomia externa e dependência epistêmica1
Jonathan de Araujo de Assis
Raquel Gontijo
Samuel Alves Soares
Neste artigo, propomos que os impactos das tecnologias de segurança sobre a democracia e a autonomia estratégica do Brasil até 2050 devem ser compreendidos a partir de uma perspectiva sociotécnica crítica que articula tecnologia, poder e produção de conhecimento. Sustenta-se que o país opera sob uma tensão estrutural entre autonomia militar interna (expressa na capacidade ampliada das Forças Armadas de definir meios e, em larga medida, os próprios fins da defesa) e heteronomia externa, caracterizada por dependência tecnológica e por dependência epistêmica.